CIOT para Todos: o que muda para embarcadores em 2026

Em 24 de maio de 2026, o mercado de frete rodoviário no Brasil ganhou uma nova régua — e ela não tem exceção. O CIOT para Todos entrou em vigor e transformou a tabela de piso de frete da ANTT de referência ignorável em filtro automático de sistema. Frete abaixo da tabela não passa mais. E quem tentar responde com multa.

Para embarcadores, o impacto é direto: o custo de frete subiu de forma estrutural, o frete de retorno — que segurava o preço de insumos — foi reprecificado e operar fora da conformidade passou a ter risco financeiro concreto.


O que é o CIOT para Todos

O CIOT (Contrato de Operação de Transporte) é o documento que formaliza a contratação de frete entre embarcador, transportador e, quando há intermediação, a transportadora contratante. Ele já existia, mas sua aplicação era irregular e o piso de frete da tabela ANTT era amplamente descumprido sem consequência prática.

O CIOT para Todos muda isso por um mecanismo simples e difícil de contornar: o CIOT passou a ser obrigatório e vinculado ao MDF-e (Manifesto Eletrônico de Documentos Fiscais). Sem CIOT emitido no valor correto, o MDF-e não é autorizado. Sem MDF-e, a viagem não existe legalmente.

Na prática: o sistema rejeita o frete antes da viagem acontecer se o valor estiver abaixo da tabela. Não é uma autuação posterior — é um bloqueio anterior.


Qual é a multa e quem responde

A multa por operação de frete abaixo do piso da tabela ANTT é de R$ 10.500 por viagem. O ponto mais relevante para embarcadores: embarcador e contratante respondem solidariamente.

Isso significa que a responsabilidade não recai só sobre a transportadora. O embarcador que contratou o frete — mesmo sem ter negociado explicitamente abaixo da tabela — pode ser autuado junto se o valor registrado no CIOT estiver fora do piso.

O chamado “frete de fundo de gaveta” — valor declarado no contrato abaixo do praticado, com a diferença acertada informalmente — deixou de ser viável. O sistema não distingue intenção; distingue valor registrado versus tabela.


O impacto no frete de retorno e no custo de insumos

O efeito mais imediato do CIOT para Todos não está no frete de grãos — está no frete de retorno.

O caminhão que descia soja ou milho do Centro-Oeste para os portos do Sul e Sudeste voltava historicamente com fertilizante ou defensivos a um preço abaixo do praticado no frete de ida. Era uma forma de o transportador cobrir o custo do retorno sem deixar a carroceria vazia — e o embarcador de insumos se beneficiava desse desconto.

Com o CIOT para Todos, o retorno passou a rodar no piso da tabela. A margem perto de zero que tornava o desconto viável desapareceu. O resultado em preço de frete de fertilizante na comparação anual é direto:

  • São Luís (MA) › Confresa (MT): +33%
  • Cubatão (SP) › Rondonópolis (MT): +62%

Não é demanda de fertilizante explodindo — é a reprecificação estrutural do frete de retorno. Para embarcadores que planejam entrega de insumos para o período pré-plantio, o impacto é permanente e não vai reverter com a normalização da safra.


O que muda na prática para o planejamento logístico

Antecipação virou obrigatória

Se o frete de retorno subiu 30% a 60% e não há mais margem para negociação abaixo do piso, embarcadores que dependiam do spot de insumos no período de preparo do solo pagam a conta inteira. Contratar frete de insumos com antecedência — via contrato BID com transportadoras homologadas — protege o custo.

Conformidade precisa estar no processo, não na revisão

Com embarcador e contratante respondendo solidariamente, o processo de contratação de frete precisa garantir que o valor registrado no CIOT corresponde ao piso da tabela ANTT para aquela rota. Deixar essa verificação para o time de operações fazer manualmente — em cima da hora, sob pressão de safra — é risco desnecessário.

Plataformas digitais de contratação de frete que já emitem o CIOT integrado ao MDF-e e validam o valor contra a tabela ANTT eliminam esse risco automaticamente.

O custo logístico precisa ser revisado

Orçamentos e modelos financeiros que usavam como referência o frete de retorno histórico — antes do CIOT para Todos — estão desatualizados. Qualquer planejamento de custo logístico para a safra 26/27 precisa ser refeito com o piso atual como base mínima.


O contexto macro que amplifica o impacto

O CIOT para Todos não chegou sozinho. O cenário de maio de 2026 combina fatores que pressionam o custo logístico por múltiplos ângulos:

Selic em 13,25% e IPCA em 5,04% — capital caro, capital de giro escasso e margem do produtor comprimida. Custo logístico mais alto num ambiente de margem apertada é um problema de resultado, não só de operação.

Déficit de 120 mil motoristas (CNT) — a oferta de frota cresce mais devagar que a demanda de carga. Com cana, soja e milho disputando o mesmo graneleiro simultaneamente em junho, o frete alto não é conjuntural.

El Niño com 96% de chance de seguir ativo no pico da safra 26/27 — risco climático adiciona volatilidade ao já imprevisível mercado de frete spot.


Perguntas frequentes

O que é o CIOT para Todos?
O CIOT para Todos é a regulamentação que tornou obrigatória a emissão do CIOT vinculado ao MDF-e para todas as operações de frete rodoviário de cargas, com valor mínimo equivalente ao piso da tabela ANTT para a rota. Entrou em vigor em 24 de maio de 2026.

Qual é a multa por frete abaixo da tabela ANTT?
A multa é de R$ 10.500 por viagem, com embarcador e contratante respondendo solidariamente — independente de quem negociou o valor abaixo do piso.

O embarcador pode ser multado mesmo sem ter negociado abaixo do piso?
Sim. A responsabilidade solidária significa que o embarcador responde pelo valor registrado no CIOT, independente da origem da negociação. O processo de contratação precisa garantir conformidade com a tabela antes da emissão.

Por que o frete de fertilizante subiu depois do CIOT para Todos?
O frete de insumos (fertilizantes, defensivos) era historicamente mais barato porque aproveitava o frete de retorno dos caminhões que desciam grãos para os portos. Com o CIOT para Todos, o retorno passou a rodar no piso da tabela, eliminando a margem que viabilizava o desconto. A reprecificação foi imediata e estrutural.

Como embarcadores podem se proteger do impacto do CIOT para Todos?
Os principais movimentos são: antecipar a contratação de frete de insumos via contratos BID antes do período de pico; usar plataformas que emitem o CIOT integrado ao MDF-e com validação automática contra a tabela ANTT; e revisar modelos de custo logístico com o piso atual como referência mínima.

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