Por Rodrigo Gonçalves – CEO goFux
Primeiro semestre fechado e muita coisa para analisar e entender. Em cada ano o agronegócio vive um desafio diferente, em alguns por falta e em outros por excesso, e em 2025 me parece que o ano de excesso penaliza bastante as operações e margens. Em que pese os problemas climáticos ainda localizados no Rio Grande do Sul, tivemos uma safra de soja recorde que ainda está em movimentação. Temos uma perspectiva espetacular de produção de milho safrinha, cana-de-açúcar com níveis de produção altos e demanda por fertilizantes e insumos também em alta.
Em junho, os fretes de uma maneira geral apresentaram leve alta versus maio, o que não muda o ponteiro dentro do ano, mas é importante perceber que hoje, o frete mesmo “flat” dói mais, porque o preço do produto é bem mais baixo que o ano anterior. Volto as minhas considerações de sempre, o frete não vive sozinho, ele existe e é função do comportamento do produto que ele transporta, e essa correlação tem se perdido de uma maneira assustadora em 2025.
Ainda nos highlights de junho e perspectivas para julho, podemos ver um Dólar no menor patamar do ano, o que pressiona a rentabilidade dos produtos de exportação, mas de certa forma também alivia a pressão nos custos de frete, sobretudo diesel que apresentou também os menores patamares do ano de 2025, porém acima de 2024 no mesmo período. Taxa de juros majorada para 15% a.a. pressiona ainda mais os custos e isso já reflete no ritmo de comercialização de novos com queda prevista de 7% versus 2024 nos caminhões e de 20% nos implementos, segundo a Fenabrave. Ou seja, a frota não está se renovando pressionada principalmente pelo custo do capital. Se olharmos o contexto de que comparado ao preço dos produtos, o frete “está caro”, fica a questão: onde vamos parar???
Nos últimos anos vimos um descolamento da relação entre frete e preço do produto vide gráficos abaixo na correlação com açúcar e soja. Notem que a variação dos fretes em rotas principais de açúcar e soja, não acompanharam os preços dos produtos, que demonstraram queda, enquanto os fretes subiram.
Vamos ver nos próximos meses/anos, um ajuste necessário na precificação de frete e do próprio agro brasileiro, na medida em que a demanda por transporte estará ainda mais pressionada. Em 2025 já estamos vendo isso, com uma safrinha de mais de 110MMtons, e um volume de exportação de soja superando os 100MMtons. Se observarmos os impactos no preço do milho essa conta é ainda mais forte, embora uma parte cada vez maior do milho seja direcionada à produção de etanol, que tem maior valor agregado e pode equilibrar melhor a conta frete.
A partir de julho começaremos a ver a intensificação dos negócios de safra futura, compra de safra nova para tentar aliviar o descolamento do MTM de 2025 com novas compras 2026. Isso demanda um senso de responsabilidade ainda maior aos gestores de logística na precificação de frete futuro. “Operar” o MTM é um artifício usado há anos, que expõe as áreas de logística a assumir fretes mais baixos, gerando artificialmente margens melhores na compra da safra futura, ajustando positivamente o resultado do ano corrente. Uma das funções do nosso produto de modelagem futura de frete é justamente isso, proteger a governança de pricing e dar argumentos sólidos para evitar ações como essa.
Cada vez mais fica claro que 2025 é um ano que marca uma virada na forma como os fretes se correlacionam com o mercado, como a superprodução agrícola também gera efeitos nocivos no preço e na demanda e como a estrutura de custos Brasil não permite ajustes de curto prazo. Vamos ter que repensar rapidamente produtividade, eficiência, alocação de capital se quisermos ter sustentabilidade financeira e operacional na logística do agro. Nesse ritmo, teremos cada vez mais demanda para uma oferta de capacidade cada vez menor e mais cara, o que resulta numa menor competitividade e lucratividade das atividades agrícolas de larga escala. Um nó que não será fácil de desatar.
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