Síntese dos principais mercados agro da semana, com a leitura de frete ancorada no mercado brasileiro.
SEMANA DE 15 A 19 DE SETEMBRO DE 2026
Economia
A Super Quarta de 16 de setembro aconteceu e mudou o tom: o Fed subiu e o Copom cortou. O Federal Reserve elevou os juros em 25 pontos, para a faixa de 3,75% a 4,00%, a primeira alta em mais de três anos, e sinalizou um cenário mais duro, com a projeção de fim de 2026 subindo de 3,8% para 4,1%. No Brasil, o Copom fez o quinto corte consecutivo da Selic, para 13,75%, de modo que o diferencial de juros encolheu cerca de 50 pontos de uma vez, para perto de 9,88 pontos percentuais. O ponto central é a sinalização de que esse pode ter sido o último corte do ciclo: um dia após a decisão, o governo anunciou reajuste de 15,04% no Bolsa Família, o fiscal voltou ao radar e, com o Fed mais firme, o mais provável passa a ser uma pausa com o juro em nível elevado por mais tempo. No exterior, o petróleo voltou a superar US$ 109 por barril antes de devolver parte, com o diesel americano em máxima da série, a US$ 6,29 por galão. No câmbio, o dólar chegou perto de R$ 5,18 e depois recuou, com o trading eleitoral seguindo como o principal driver do real.
Soja
A Conab trouxe uma soja recorde, mas mais apertada, e o crush da China segue como pano de fundo estrutural. No primeiro número oficial da safra 26/27, a Conab projeta produção de 181,6 milhões de toneladas, novo recorde, porém com alta de apenas 0,7%: a área cresce 1,4%, o menor avanço percentual em 20 anos, e a produtividade recua 0,8%. Mesmo na régua conservadora do órgão, o balanço aperta, com o estoque final caindo de 9,2 para 6,2 milhões de toneladas, já que exportação e esmagamento somam mais demanda do que o ganho de produção. A diferença para o USDA, que manteve 186 milhões de toneladas no WASDE de setembro, está toda na safra nova e depende de uma produtividade acima do esperado, com o El Niño forte pesando contra. No mercado, o pano de fundo segue a redução do crush na China entre dezembro e fevereiro, por oferta cara e margens ruins, enquanto a exportação brasileira acumula alta de 7,2% no ano e o produtor mantém a preferência por segurar a venda.
Milho
A Conab confirmou a safra 25/26 recorde e projetou recuperação da primeira safra em 26/27, mas o programa de exportação segue lento. A safra 25/26 foi fechada em 144,0 milhões de toneladas, maior volume da série, e para 26/27 o órgão trabalha com 148,0 milhões, alta de 2,8%, puxada pelo milho verão, cuja área cresce 10,7% e a produção 8,9%. No comércio exterior, o quadro segue desafiador: o programa brasileiro está cerca de 22% atrás do ano passado, a Argentina encerra a maior safra da série com FOB mais barato, e a exportação acumulada recua no ano. No físico, o interior segue firme em Goiás e Mato Grosso, sustentado pelas margens do etanol de milho, que absorve uma parcela crescente da produção e disputa o grão com o canal de exportação.
Fertilizantes
O nitrogenado seguiu subindo e é o ponto de tensão do setor. A ureia foi para US$ 490 a 495 por tonelada CFR, uma alta de cerca de US$ 85 em um mês, com ofertas entre US$ 500 e 510 desde a quarta-feira e liquidez mais limitada no Brasil. O sulfato de amônio ficou firme, entre US$ 250 e 255, com o sistema de cotas de exportação da China em vigor desde 15/09 apertando ainda mais a oferta. Os fosfatados ficaram estáveis, com o MAP entre US$ 830 e 850, e o enxofre recuou para a faixa de US$ 980 a 1.000, ainda longe de viabilizar a produção nacional. O cloreto de potássio, a US$ 370, cedeu de leve, com o foco migrando para a antecipação da safra 2027/28 em Mato Grosso, onde a relação de troca favorável já levou a 400 a 450 mil toneladas negociadas. As importações seguem em queda de 16% no ano, com Santos consolidado como o maior porto de fertilizante de 2026.
Açúcar e Etanol
O esmagamento de milho para etanol somou 2,25 milhões de toneladas em agosto, alta de 23,9% sobre o ano passado, com o acumulado do ano avançando 21,8% e a participação do milho na matéria-prima total subindo para 18,1% no mês. Maranhão e Bahia ganham peso na expansão, ao lado de Mato Grosso, reforçando a interiorização da produção. Na bomba, o hidratado segue competitivo em quase todo o país, com a paridade abaixo do limite de 70% frente à gasolina em praças como São Paulo, Mato Grosso e Paraná, e o etanol de milho sustenta o esmagamento na entressafra da cana.
Clima
O calor seguiu forte no centro do país, com máximas acima de 40 °C em Mato Grosso, Goiás, Tocantins e no Matopiba, e chuvas concentradas no Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul e no Sul. A mudança mais relevante aparece na virada de setembro para outubro, quando os modelos ampliam a cobertura de chuvas sobre o Centro-Oeste e o Sudeste, melhorando a condição de plantio da soja 2026/27, ainda que o Matopiba siga mais lento. O El Niño segue forte, com a chance de um evento muito forte na primavera e no verão acima de 90%, mantendo o risco no timing das chuvas ao longo do ciclo.
Fretes · Mercado Brasileiro
O destaque logístico da semana foi a inversão da fila de fertilizante. O tempo de espera dos navios no terminal de Santos disparou para 23,5 dias, ante cerca de 7 dias no ano passado, por falha de equipamento, pela tabela de frete implementada e pela concentração de volume no porto, enquanto Paranaguá e Rio Grande praticamente zeraram, ante 12 e 13 dias um ano atrás. O congestionamento de fertilizante migrou, portanto, para o mesmo porto que também escoa grão. No Arco Norte, a vazante segue apertando o calado das barcaças no Tapajós e no Madeira, e a fila em Barcarena continua elevada, num corredor que responde por cerca de 22% da exportação de milho. No retorno de fertilizante, os corredores ficaram estáveis, com Paranaguá a Sorriso perto de R$ 510 por tonelada, Santos a Rondonópolis a R$ 365, Santos a Rio Verde a R$ 280 e Santos a Uberlândia a R$ 265. Os valores das rotas de grãos e de retorno entram no espaço reservado, a partir do painel da base goFlux.
NA PRÁTICA · FRETE A concentração da importação de fertilizante em Santos, que já cresce 18,5% no ano, encontra agora uma fila recorde no porto e disputa espaço com o escoamento de grão, enquanto Paranaguá e Rio Grande esvaziam junto com um programa de importação menor. Para quem monta backhaul, vale privilegiar as rotas por Paranaguá e Rio Grande, hoje sem espera, e reservar janela com antecedência em Santos, onde o gargalo tende a persistir. Como fator macro, o juro alto por mais tempo, com o ciclo de corte possivelmente encerrado, mantém o freio sobre a renovação de frota, enquanto o dólar mais fraco pela eleição melhora a paridade e sustenta a comercialização.
O que observar na próxima semana
- Macro: a Ata do Copom em 22/09 e o IPCA-15 em 25/09, que ajudam a medir se 13,75% foi mesmo o último corte.
- Fertilizantes: o desdobramento das cotas de exportação da China e a evolução da fila em Santos frente a Paranaguá e Rio Grande.
- Soja: o ritmo das compras chinesas e a confirmação da redução do crush na China para a entressafra.
- Milho: se o programa de exportação brasileiro reage à janela de nov a jan diante da Argentina recorde e mais barata.
- Câmbio: as novas pesquisas eleitorais, que seguem como o principal driver do real.
- Frete: a vazante do Tapajós e do Madeira, a fila em Barcarena e a régua rodoviária de grãos por praça.


